RIO ACIMA

      

       O grande rio está plácido e chove em todo o seu gigantesco entorno. Torrencialmente. O barco, cujo vagaroso motor de popa nos leva a um arquipélago distante , mantem seu ritmo . Deitado em uma rede no convés observo a chuva que tudo lava e traz cheiro de terra, água, madeira podre, peixe fresco. A metáfora do rio acima apesar da correnteza contra me serve como uma luva nesse acolhimento quase urbano de minha casa onde chuva nas árvores e a penumbra do quarto me levam ao útero de mim mesmo. Saudosismo não tem idade mas não é disso que falo. Falo mesmo é da sensação de ser o chinelo velho e confortável de si mesmo, do contentamento em ser quem somos num dia frio , chuvoso e nada tenebroso como hoje.
   O barco rio caudaloso acima levado por esse velho motor de popa não vislumbra ancoradouros e nem creio que eles seriam viáveis no meio da chuvarada. Não sei a fundura do rio, não conheço os bancos de areia, não sei de troncos pesados de árvores seculares descerão na nossa direção. Sei apenas que é um conforto boiar sobre os problemas, considerá-los amenos, pequenos, tudo tão relativo quando vejo que não há motivo para não celebrar a beleza do rio, da chuva em volta, do tempo escolhido para ver que enfim tudo faz sentido.


Ricardo Soares
1 de outubro de 2010

Comentários

Claudia Ka disse…
Achei algo para combinar com seu blog....

http://3.bp.blogspot.com/_NHPx_YaPShk/SQodSBtKkiI/AAAAAAAAC4U/R4RI6kqQXOQ/s400/tomate-roxo-grande.jpg

Que pizza colorida ia dar.

;-)

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