a espetacularização da tragédia colombiana

O caboclo da foto é Mono Jojoy, principal líder militar das Farc, uma espécie de marechal de campo da guerrilha que foi morto em 22 de setembro em confronto com militares.Sua foto morto e massacrado espalhou-se pela internet assim como já tinha acontecido antes com Raul Reys, o secretário geral das Farc, quando foi assassinado tempos atrás.  Essa sórdida espetacularização da guerra da Colômbia, sobretudo quando mostra o massacre de guerrilheiros, é capitaneada por uma espécie de mídia que vilaniza os guerrilheiros mas não explica o conflito.
Antes de mais nada é preciso dizer aqui , mais uma vez, que não sou simpatizante das Farc como já insinuaram alguns biltres, inclusive publicamente, quando conclui o documentário "Colombianos" exibido pela Tv Cultura em 2007 e Tv Brasil em 2008. Não sou , não serei jamais simpatizante de quem promove sequestros e extorsões mas não  posso deixar de lembrar pela enésima vez as atrocidades do estado colombiano na figura do exército e dos paramilitares que nivela a todos na barbárie. Isso sem contar que todas as instâncias do poder colombiano tem as mãos manchadas pela cocaína . Ali não existem santos e a guerra continua apesar dos esforços de certa mídia em tentar fazer crer que a situação está sob controle total. Apregoam que após a morte de Reyes, Marulanda ( o líder máximo e fundador) e agora Mono a guerrilha sofreu golpes irreparáveis. Não duvido. Mas que não se pense que estão a beira da extinção porque ontem mesmo a France Presse divulgou matéria garantindo que existem no país pelo menos 7000 guerrilheiros das Farc em franca atividade. Isso sem contar com os 2500 da ELN.  Como se percebe números distantes do  zero como apregoava o "Bush boy" Uribe e seu sucessor Juan Manuel Santos, vassalos totais dos interesses americanos no continente.
Leio junto a outros livros o comovente relato de Ingrid Bettancourt sobre seus anos de cativeiro na selva em mãos das Farc. Me impressiono com a memória, clareza e crueza do relato e não tenho motivos pra duvidar de uma única linha. Só suspeito se apesar de sua desenvoltura o livro não tenha passado pelas mãos de um competente ghost writer pois é muito competente nos seus flashbacks narrativos. Ágeis, velozes e nada tediosos apesar do calor e dos mosquitos da selva colombiana. Conheço muitos dos lugares que Ingrid relata . Sei do horror e do desconforto pois visitei acampamentos guerrilheiros, vi prisioneiros e estive inclusive com Mono Jojoy, Marulanda e Reyes. Por tudo isso lhes garanto que nunca na história de nosso país li um único relato que de fato se aproxime daquilo que se passa na Colômbia. Determinaram que ali os governantes são os mocinhos , guerrilheiros são vilões e os paramilitares um mal necessário. Não é nada disso. Não se coloca uma única linha de contextualização histórica pra explicar a ruptura que ali acontece desde 1948. E só me resta dizer isso aqui pois todo o material bruto que eu trouxe daquele país jaz guardado em arquivos que  infelizmente não me pertencem. Foram refens da mesquinharia de um poderoso circunstancial e hoje , me garantem, o assunto não tem mais relevância. Para mim tem sim. E o que passa na Colômbia ainda é uma história muito mal contada. Em breve pretendo colocar a versão de "Colombianos" no Youtube pra ao menos diminuir minha culpa em relação a tudo isso.

Comentários

Bravo!
Eu nunca fui, não conheço, mas suspeito que...
Cláudio Camargo disse…
Tentei publicar este comentário ontem, mas devo ter feito alguma besteira...então, lá vai de novo:
Esta é uma das melhores coisas que eu já li sobre a Colômbia ultimamente. É insuportável o grau de desinformação, simplificação e arrogância da mídia tupiniquim em se tratando de países latino-americanos. A Colômbia tem uma história dramática de conflitos sociais que não pode ser reduzida a fórmulas maniqueístas. Pude comprovar isso in loco, pois também estive lá (em 1999), cobrindo as negociações de paz pela ISTOÉ. Também tive a oportunidade de entrevistar o Marulanda, o Reyes e o Mono Jojoy. Interessante notar que, enquanto para nós era difícil entender a racionalmente a opção pela guerrilha no final do século XX, para eles era impossível compreender porque não havia luta armada no Brasil, um país com tanta desigualdade... Vizinhos distantes, como dizia o Alan Riding.
abs.,
Cláudio Camargo

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