VOTEI NA DILMA E NÃO ME ENVERGONHO

(mini-inventário de um cinquentão que se estranha ao defender o governo)

      Atalhos a serem percorridos, dúvidas e dívidas politicas muitas , apreensões, traições, vaidades a serem contempladas, aliados hediondos. Tudo isso existe sim ! Apesar de mensalão, mensaleiros, apesar de Temer, Collor, Ciro Megalô Gomes , Renan , Sarney e demais detritos da vida pública brasileira, apesar do aparelhamento de cargos públicos e de inoperantes em postos chaves, apesar das intrigas , falácias e fofocas, apesar do equivocado modelo de desenvolvimento que privilegia a posse e não o saber, apesar de todos eles e de mais Palocci e seu indecente desrespeito à privacidade alheia, apesar de Dirceu e seus negócios mal explicados, apesar de todos os pecados, eu votei Dilma e disso não me envergonho. Mesmo que não tenha sido a mulher que eu preferia na condução da nação, mesmo que a considere robótica, dura, sem senso de humor e jogo de cintura, é a ela que nossos destinos estarão atrelados a partir do dia primeiro de janeiro de 2011.
    Ínfima gota d'água nesse oceano de informação nada tem de importante ou relevante meu depoimento mas deixo claro que me deixei convencer a dar meu voto a Dilma não pelo meu asco ao “modus operandi” dos tucanos ou suas falsas ambições de quem tudo podem , tudo resolvem e para tudo tem um conserto porque estão acima dos demais mortais como denota a já malfadada e lendária empáfia desses cavalheiros , agora da ordem desunida. Meu voto foi para Dilma unicamente e apesar de suas espúrias alianças porque em muitos anos de profissão tive a oportunidade de percorrer todos os estados desse país ( em seus interiores e capitais) com exceção de Acre e Rondônia e posso lhes garantir que a miséria se enraizou em todos os cantos em povoados e cidades perdidas, desfiladeiros de desesperos, assentamentos de desalentados, barracos mal jogados, prédios desmoronados, bueiros, viadutos, terrenos baldios , periferias imensas pouco ou nada atendidas pelas políticas públicas . E o que pude ver nos anos do governo Lula não pela propaganda oficial ou relatos dos coniventes ? Que de fato a miséria veio diminuindo, quem nada tinha agora um pouco tem, quem pouco tinha pode sonhar com mais um naco, quem nunca pode sonhar com dias melhores agora projeta o futuro.
  Disso não sabem os mais ferozes e céticos críticos do modelo lulista e dilmista, empedernidos e bem vestidos profissionais liberais, jornalistas de ar condicionado, advogados de escritórios chics, gente que muitas vezes mora há décadas em Brasília mas nunca lançou os olhos ou atravessou as fronteiras além de Taquatinga. Disso não sabem os moradores dos condomínios de luxo da capital paulista ou os bem nascidos dos interiores paulistas a detonarem cartões de crédito nos shoppings de Miami enquanto suas usinas transbordam lucros canavieiros e inundam contaneires de cítricos mundo afora. Essa gente costuma não gostar de pobres nos aeroportos, aumento das filas dos restaurantes, carros saindo pelo ladrão das indústrias, crédito pra todos. Não que eu defenda esse consumismo desenfreado de asfaltos e freadas, versões equivocadas da felicidade refrigerada em shopping centers. Mas se a liberdade/felicidade passou a ser o acumulo de bens de consumo porque muitos não podem ter acesso ? A educação e civilidade ajudariam a ensinar a malta que além de ter roupas de marca e carros novos seria de bom tom respeitar os limites de velocidade , faixas de segurança, lei do silêncio, regras minimas de convivência além de um pouco mais de cultura e informação além das fronteiras dos BBBs e celebridades. Mas nesse ponto a classe média e alguns ricos , que se sentes aviltados com Dilma , nivelam-se aos desvalidos. Esse é o país onde o axé, breganojo e pagode ruim arrastam multidões de distintas classes sociais. Esse é o país onde jovens bem alimentados inundam as arenas de rodeios fantasiados de toscos cowboys e cowgirls texanos reafirmando nossa “ identidade nacional”.
    Nossa tragédia nacional agora passa aos poucos a não ser a exclusão mas a deseducação, a falta de civilidade e de bons modos. Votaria sem pestanejar e até faria campanha enfática por qualquer candidato que abraçasse essa causa de verdade. Mas enquanto isso não é possível por que eu não devo comemorar o fato de que mais gente possa ter mais felicidade visto que a felicidade é o “consumo logo existo” e não o “penso logo existo” ?
     O jogo deveria estar zerado após essa eleição tão beligerante. A mídia deu um show de hipocrisia e parcialidade tentando nos enganar o tempo todo de que estava dando espaço igual para os dois candidatos. Sabemos que isso não é verdade. Até porque a mídia não gosta de quem pronuncia palavras erradas. A mídia não curte quem curte pinga com cambuci e nem frango com polenta. A mídia curte “poire” , “prosecco”, inglês britânico , endereços decorados em Nova York ou na City de London. A mídia ficou risível quando seus funcionários e empregados se comportam e pensam como seus empregadores. A mídia me envergonha e torço para que cada vez mais as redes sociais solapem o poder das grandes corporações.
    Serra e aqueles que o cercam representam desde sempre tudo aquilo que não acredito. Não é apenas implicância por sua pose de falso moralista ou pelos olhos que dizem uma coisa quando o esgar da boca diz outro. É por Serra embutir em si toda aquela deplorável presunção paulistana de que sabemos e podemos mais que os outros. É porque aposta, sem admitir, no separatismo, na divisão, no preconceito contra os mais pobres , mesmo que finja estender a mão a eles. Afinal alguém viu cena mais falsa nessa campanha do que Serra fingir estar apreciando um churrasquinho na laje ?
   Serra e aqueles que o cercam acusam o petismo ou o lulismo de fomentar uma guerra social , a separação entre ricos e pobres. Poucos argumentos pra mim foram tão risíveis visto que com todos os defeitos desses oito anos de Lula foi ele o presidente que na história da República mais aproximou ricos e pobres. Por coincidência passei a maior parte de minha infância, até o fim da adolescência, na Vila Paulicéia, São Bernardo do Campo. Ficava a duas quadras da sede da Mercedes Benz do Brasil e bem perto de uma casa onde Lula morou. Na minha antiga vila nunca vi aquela classe média baixa prosperar tanto quanto nesses últimos oito anos.
   Ah,as emoções baratas, a sanha da luta pelo poder. O que não fazem os homens para ter o mais afrodisíaco dos sentimentos humanos. Poder, aliás, pode ser chamado de sentimento ? Não sei mas sei o que vi pelo país afora nesses anos que se findam. E vi também que a estabilidade foi mantida sim pela manutenção de uma politica econômica herdada dos tucanos. Mais um mérito lulista pois ,pergunto, fosse o contrário Serra teria levado adiante politica herdada de petistas ? Serra pode até ser um gestor competente mas é um ser humano muito pequeno. Seus horizontes sempre levam de volta ao seu umbigo. Nisso se assemelha a desafetos nefastos como o execrável Ciro Megalô Gomes, a mais completa tradução de Zelig político de nossa história recente.
    Tudo que os cidadãos que trabalham nesse país gostariam- suponho eu – é que agora os contendores deixassem as trincheiras , depusessem as armas e fossem juntos fazer um país. Situação fazendo o que prometeu e a oposição cobrando com conseqüência e responsabilidade. Como há ratos e oportunistas nos navios de ambos os lados temo que isso não seja possível. Mas entre tantas emoções baratas imagino que seja possível uma conjunção astral onde apareça uma nesga de bom senso. Mesmo em meio ao loteamento de cargos e funções que já se avizinha. Afinal, agora já cinquentão, eu ainda me esforço por conservar uma dose de otimismo. Mesmo em meio ao cinismo, aos interesses menores, as picuinhas. Nunca é tarde para mudar. Tomo por conta eu mesmo. Quem diria que um dia em minha vida ia sentar diante de um computador pra defender um governo que se não foi o máximo foi o melhor que já vi nesse país na minha curta passagem sobre a Terra Brasilis ?
***
Ricardo Soares   2/11/2010

Comentários

Helô Müller disse…
Aplaudo sua coragem e discernimento! Se todos agissem de acordo com o que vêem e sentem, além de seus próprios umbigos, teríamos, sem dúvida alguma, um mundo mais justo, civilizado e coabitável!
Foi um prazer imenso saber o que o Ricardo tem a dizer... Li, gostei e me orgulhei!
Bj
Helô
Excelente argumentação.
E concordo plenamente.
Fabricio Carlos disse…
concordo com a Helo quanto a "Se todos agissem de acordo com o que vêem e sentem"

agora, lendo a parte da educaçao e felicidade, me surge a curiosidade: vc votaria no Cristovam Buarque?

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