Discursos imaginários que eu adoraria ouvir


(No Senado.De um senador cinquentão para José Sarney)


Prezado senhor presidente, senhores senadores, senhoras senadoras :

      Venho hoje a essa tribuna como tantos outros antes de mim assim o fizeram no passado dessa casa para tentar aqui um discurso que seja minimamente diferente, um pouco diverso do que aqui ouvimos após tantos anos de história republicana. Não me tomem por pretensioso, por falsamente perspicaz ou sequer por loquaz visto que tentarei ser breve muito embora tenha muito a dizer.
      Tenho 50 anos e pertenço a uma geração que viveu espremida entre o fim dos sonhos dos anos dourados da década de 50 e os ideais hippies e flower power dos 60. Crescemos à sombra da ditadura e logo pegamos o começo do yupismo , a crise novo rico de todo o planeta Terra , a queda dos muros, o começo da Aids e o fim da utopia do amor livre e do sexo sem culpa .Uma geração feita de estilhaços que tentou buscar identidade própria em meio a tantos espelhos partidos. Uma geração jovem que nasceu velha quando se colocou a globalização na ordem do dia. Por isso senhores e senhoras fico feliz em poder me dirigir hoje a vocês do alto dessa tribuna e ter de vocês um minuto de vossas desatenções , sempre ocupadas em atender aos celulares a interesses escusos, para que eu deixe claro que um cinquentão na política é sempre taxado, ainda, de jovem. Jovens cinquentões representantes talvez de uma geração sem cara.Mas se jovem sou no ofício quero deixar claro que quero representar aqui minha própria voz e a dos meus pares e não ser “representado” por aqueles que pretensamente jovens já nasceram provectos em idéias e ideais como o jovem senhor senador Aécio Neves.
      Por favor senhoras e senhores não me tomem em mau juízo. Nada tenho contra o neto do senhor Tancredo Neves. Apenas quero deixar claro que milhares como eu não se sentem ou jamais se sentirão representados por “jovens “ senadores como Aécio Neves cujo frescor de novidade política equivale a uma espécie de Matusalém da Pampulha. Seu ideário lamentavelmente não está sintonizado com os novos tempos e aquilo que pronuncia num constante ramerrão de mesmices é o mesmo que estamos ouvindo desde os tempos idos e vividos da política do café com leite.
     Mas senhoras e senhores senadores, ilustres excelências que tanto prezam os pronomes de tratamento, as mordomias e as mesuras. Não estou aqui para empanar o brilho de sorriso de dentifrício do senador Aécio mas, repito, tentar dar um mínimo tom de novidade aos discursos dessa casa, tentativa talvez vã de desafinar o coro dos contentes. Tentar aqui reproduzir o que milhões de cidadãos brasileiros gostariam de dizer aos senhores mas não podem porque mesmo quando somos eleitos em nome deles não praticamos aqui a sinceridade. Viramos argutos, hipócritas, trocamos a sinceridade pela hipocrisia, pelas conveniências, pelos falsos abraços . Tristes figuras nos tornamos.
      A democracia tão arduamente defendida aqui por gregos e troianos, a democracia sempre evocada até por aqueles que a ela deram as costas deve ser praticada com efeito sim senhores. E se democracia é o que aqui defendemos porque não começamos por evocar através dela o livre –pensar ? Por que, por exemplo, devemos nos calar diante do abismo em que nos colocamos diante dos brasileiros quando elegemos mais uma vez para presidir essa casa o senador José Sarney num claro divórcio entre o que quer e pretende o senado federal e o que quer e pretende a opinião pública ? Será que não ouvimos o clamor das ruas, o "Vox Populi Vox Dei" que tem o presidente dessa casa em tão baixa conta ? Será mesmo que o presidente dessa egrégia casa acredita que o povo brasileiro o ama e venera, o respeita e glorifica ? Ora, o presidente dessa casa se diz intelectual, escritor, é um acadêmico que lê jornais, emprega assessores com altos salários para lhe prestarem ajuda na área de comunicação e de pesquisas e portanto deve saber que sua popularidade é abaixo de zero em todos os estados da federação excetuando-se o Maranhão onde controla a mídia e o Amapá por onde se elege .
     O presidente José Sarney antes de mais nada é uma figura que se tem em alta conta. Tanto que construiu em patrimônio público , o convento das Mercês em São Luis,um memorial em sua própria homenagem para tentar garantir em vida a imortalidade que fatalmente não virá não apenas pelos inúmeros desserviços que prestou à nação mas pelo seu próprio raquitismo político e intelectual que o coloca quando muito como uma figura risível na nossa crônica política e literária. O senador Sarney é o maior exemplo daquele que acha que foi sem nunca ter sido. Fica há anos-luz de poucos senadores notáveis que passaram por essa casa como o falecido e vulcânico Darcy Ribeiro para citar apenas um exemplo de homem público que foi tendo sido.
      Muitas das vivandeiras do senador José Sarney vão se sentir ultrajadas com essas minhas palavras aqui da tribuna. Mas saibam senhoras e senhores que represento muitos. “Meu nome é legião” para usar aqui um clichê de filmes de terror quando uma entidade incorpora a voz de muitas outras. Eu sou o cavalo de muitos aqui, sou uma entidade que clama por vergonha para essa casa.
    E por que justamente agora me presto a esse serviço ? porque não podemos simplesmente fechar os olhos ao que acontece no mundo. O Oriente Médio tenta à custa de muitas vidas expurgar seus ditadores nefastos, a vanguarda do atraso nos países que desgovernam. E não é que justamente por conta desses ditadores que já vão tarde surgiram comparações inevitáveis entre esses senhores e o presidente dessa casa resguardando todas as devidas proporções ?
      Sim, não façamos aqui nenhuma ligação do senador Sarney com torturas, assassinatos e outras barbaridades. Mas não esqueçamos da conivência do presidente dessa casa com toda sorte de episódios e escândalos desde que ele se tornou um homem público. Sem contar o seu protagonismo diante da condescendência com a ditadura militar de 64 a 85 e sem falar das peças que mexeu para submeter o jornal O Estado de S. Paulo a censura incabível nos dias de hoje.
     Nada tenho de pessoal contra o senador Sarney. Também nada tenho a favor pois sou sincero em lhes dizer que seu estilo imperial e feudal é tão descabido que me provoca sinceros engulhos. Apenas insisto em apontar os inúmeros defeitos de fabricação do presidente dessa Casa pois , infelizmente, a figura que preside o senado acaba por ser o out- door dessa casa. E eu sinceramente me envergonho do senhor e pelo senhor senador Sarney. Triste saber que o senado do meu país é representado por um político com esse currículo. Tenho tristeza por mim,pelos meus filhos e pelos meus netos que virão. O senhor sempre preferiu , com vosso poder feito de barganhas, ser temido do que amado. Eu nunca o temi senador . E jamais poderia amá-lo pois no fim das contas, depois da poeira da história, a gente acaba mesmo é só amando os justos, os sábios, os eternos. O senhor , felizmente, não será infinito nem enquanto durar e apesar de no fundo do meu coração eu lhe desejar muita saúde eu gostaria que hoje o senhor estivesse presidindo apenas uma mesa de ceias na ilha do Curupu. No fundo mesmo eu queria que o senhor tivesse uma vida muito longa distante dessa casa para que a distância o senhor percebesse o quanto sua ausência preencheria muitas lacunas. Muito obrigado pelas vaias dos senhores e senhoras senadoras que o elegeram ao fim desse discurso pois sei que lá fora os aplausos daqueles que apearam os Mubaraks do poder haverão de me alcançar para que eu também, mortal comum, viva a ilusão de ser um Sarney. O que imagina ter sido algo além do que um cavaleiro de triste e melancólica figura.

Comentários

Arthur disse…
Muito bom discurso, nobre colega! rsrsrs. Mas assim como o podre Sarney, existiram, existem e existirao outros. Enquanto essa sensacao de onipotencia continuar encravada em nossos politicos, sera dificil alguma mudanca...

Abcs! Arthur

*seu blog muitas vezes me faz companhia nas tediosas e longas esperas que tenho que enfrentar nos aeroportos...
Ricardo Soares disse…
thanks pela deferência Arthur...fico feliz que o blog lhe faça boa companhia...e boas viagens...abs
Anônimo disse…
Desculpa, mas você não foi o jornalista que fez campanha para eleger esse crápula?
Fabricio Carlos disse…
Um dúvida: do atual senado, que salva para vc?

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