O BRASIL MERECE O NOSSO AMOR

            No meu tempo de menino o Brasil tinha 90 milhões de habitantes, a gente brincava na rua e nas salas de aula muitas vezes tinha pendurado o retrato do general Médici que era o presidente do país. Diziam que éramos“90 milhões em ação” por causa de uma música que tocou muito durante a Copa de 70 quando ganhamos o tri- campeonato mundial de futebol no México. Lembro que as ruas ficaram todas embandeiradas, rojões estouravam para todo lado e nos muros , pintados a giz colorido,todo mundo comemorava a nossa vitória e em alguns estava escrita a frase que os militares adoravam e divulgavam nas escolas : “ O Brasil merece o nosso amor”.
    Eu não sabia se o Brasil merecia ou não o meu amor. O que sabia é que amava a minha rua, a minha vila, os meus pais e até as chatas das minhas irmãs. De um jeito que era só meu as vezes rezava e pedia para que elas ficassem bem mas não me amolassem muito. E queria ter muito tempo para andar de bicicleta, jogar bola nos campinhos e catar bambu nos matagais vizinhos para construir pipas para a temporada de julho.
   É bom que eu não minta. Adorava ir catar bambu sim mas não fazia a minima idéia de como se construía uma pipa, um papagaio, sequer uma capucheta feita de jornal velho. Era um desastre com as mãos. Não sabia desenhar, cortar, pintar , modelar. Nada disso. Meu negócio era bater perna pela vila, pedalar pela vila , voltar sujo para casa e impedir que alguns moleques idiotas matassem passarinhos com seus estilingues rombudos. Naquela época eu já gostava de São Francisco de Assis, o santo protetor dos animais.
    Eu morava numa vila repleta de trabalhadores da indústria automobilística em São Bernardo do Campo no Abc paulista. Naquela época não havia Rodovia dos Imigrantes e nem uma porção de avenidas que existem lá hoje em dia. Avenidas, ruas e viadutos que destruíram as paisagens, as lembranças do meu passado , os campinhos de futebol , os bambuzais, os pomares, as hortas e histórias muito antigas da imigração italiana. Mas não destruiu a história que eu tenho aqui para contar que se passa não muito longe da Via Anchieta, a velha estrada que liga São Paulo a Santos.
    A Via Anchieta, de pistas simples, era o único acesso que havia naquela época entre São Paulo e São Bernardo. A não ser que se fizesse – como meu pai fazia as vezes- o caminho que vinha pela estrada do Zoológico , desde a Água Fria, e se caísse no bairro do Taboão ,tão pobrezinho e já perigoso naquela época. Mas a gente não temia atravessar essa fronteira na Rural velha azul e branca do meu pai. Até porque aprendi desde cedo que é muito feio esse negócio de ter medo de pobre. E pobre por pobre nós também éramos. Ou “remediados” como gostava de dizer a minha mãe.

Comentários

Anônimo disse…
Escreva mais sobre isso, muito bonito e... afinal, sao memorias que estou roubando... :)
Fabricio Carlos disse…
concordo com o Anônimo!!!

tempo bom o seu... Vivi um pouco dessas coisas, brinca na rua e tudo mais, mas bem menos do que vc.

Fico triste em pensar q meus (possíveis) filhos viverão quase nada disso...

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