Wando, o sedutor

      
    Hoje o Brasil só vai falar de Wando. Vão, enfim, lembrar dele como deveria ser lembrado. Até a "Folha de SP" que se auto-intitula"um jornal de prestígio do segmento premium" vai,talvez, dedicar a ele o espaço que dedica a qualquer espasmo de poeta concreto porque, enfim, Wando não está mais entre nós. Ele que era, sem favor algum, uma das mais completas definições do brega nacional, na escala das emoções úmidas, baratas e tão caras à sensibilidade feminina dos segmentos não favorecidos economicamente. Falei  parodiando pedantismo para dizer que o Wando era a cara do Brasil.
       Nos idos de 1975 ( talvez um pouco antes,talvez pouco depois) me vejo adolescente abaixo do Minhocão indo em direção à Biblioteca Monteiro Lobato ( na rua General  Jardim, Vila Buarque, quase centro de SP) indo encontrar jovens amigos afeitos à poesia quando esbarro por todo o caminho desde o Parque Dom Pedro com rádios ligados que sem parar tocavam "Moça" de Wando onde ele proclamava meloso "quero me embolar nos seus cabelos".
     Na vida profissional me lembro de ter estado com Wando mais de uma vez. Simpaticíssimo. Sempre achei que ele fosse de Congonhas do Campo porque conheci um músico que tocou com ele que era dessa cidade e garantia ser Wando seu conterrâneo. Mas Wando era de Cajuri e morreu em Nova Lima. Mineiro da gema que encarnou como poucos o romantismo exacerbado de luz neon,  calcinhas e bebidas doces que emolduram a sensibilidade nacional. Com Reginaldo Rossi e Waldick Soriano forma há muito tempo  a santíssima trindade das trilhas sonoras dos puteiros. Há muito merecia um documentário, uma biografia, uma homenagem à sua altura. Mas o Brasil "premium" das Folhas Ilustradas acha que essa honra só cabe aos poetas concretos e nunca a Wando, o sedutor.

Comentários

Elizabeth disse…
a falha premium que sifu. muito bonito texto Ricardo, ele era mesmo a cara do Brasil,bj
Ricardo Soares disse…
obrigado Elizabeth...ele era mesmo a cara do Brasil...
E. Campos disse…
Linda homenagem.
Wando sempre me lembrou 'Moça', também. Trilha de novela, acho que 'Pecado capital', uma das melhores coletâneas de música popular já feitas, e uma das mais populares de fato. Rodava na minha vitrola azul monofônica. Eu não tinha nem dez anos de idade.
Artistas como Wando ficam gravados no coração das pessoas, porque o gosto e a cultura discriminam, mas o coração não tem preconceitos.
Ricardo Soares disse…
mesmo o coração que não deve ter preconceitos acaba por ter... estou cheio deles infelizmente meu caro Edu Campos... mas nos meus preconceitos não cabem as perolas do Wando...aquele abraço
E. Campos disse…
Impressão tua. O coração é sempre puro. Pode olhar. A gente é que vai se rendendo, se acovardando por fora. Com grande ajuda da massa dos outros, claro.
Arilo disse…
O melhor comentário a respeito de Wando até o momento, bela postagem.
Maria Amélia disse…
Adorei, Ric. Também penso assim. Não sei quando os "formadores de opinião" vão encarar o povo brasileiro.É muito mais fácil falar de uma banda inexpressiva, que toca numa biboca de Londres, do que encarar um Wando de frente. Nestes tempos de superexposição, onde todo mundo é bacana, inteligente, original e descolado, não há espaço para tentar entender qual é a nossa cara. Bjs.

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