COM JULIO CORTAZAR E MARCOS FAERMAN

       
foto : Ricardo Soares
     Mês e meio atrás, tarde nublada, me curvei numa espécie de aplauso silencioso diante do túmulo de Julio Cortazar e sua companheira Carol Dunlop no cemitério de Montparnasse , Paris. Cortazar,  autor fundamental não apenas na literatura latino americana mas na literatura mundial de todos os tempos e que descobri aos 16 anos ao ler um exemplar de "Todos os fogos, o fogo" com chamas na capa, publicado pelo extinto "Círculo do Livro".
         Diante daquele túmulo modesto, econômico, quase espartano, fiquei imaginando as muitas vidas vividas por Cortazar pra produzir literatura tão inquietante, tão inventiva, tão inimitável. Fiquei imaginando que ruas de Paris teria percorrido ,em que cafés havia entrado, quantos vinhos tinha bebido, quantas alegrias e tristezas havia vivido na cidade que ele tanto amou e que o fez deixar para sempre sua Argentina natal muito embora tenha nascido na Bélgica. Em Cortazar até as poéticas imprecisões sobre nascimento e morte parecem fazer parte de sua literatura. Ele mesmo dizia: “Nasci em Bruxelas, no dia 26 de agosto de 1914. Signo: Virgem. Meu planeta é Mercúrio e minha cor é o cinza (ainda que, a bem da verdade, eu prefira o verde). As circunstâncias do meu nascimento não foram extraordinárias, mas um tanto quanto pitorescas: nasci em Bruxelas como poderia ter nascido em Helsinque ou na Guatemala.” 
         Diante daquele túmulo mais uma vez me certifiquei da dimensão da minha pequenez,da minha presunção ( ainda bem que contida) em imaginar que eu possa fazer algo que chegue minimamente aos pés do que Cortázar fez. Diante daquele túmulo ou diante de obras como a de Cortázar sempre tenho impressão de que nada mais existe para ser dito e me encho de piedade por mim mesmo e por outros autores brasileiros – que se julgam importantes- que debatem esterilidades e disputam bocas livres para a mesma Paris de Cortazar sem se dar conta do quanto são ( somos) pequenos.
         Naquela tarde recente diante do túmulo de Cortazar e Dunlop -onde escritos a caneta sobre a lápide e uma flor seca e amarela homenageavam aqueles mortos-   eu mais uma vez me certifiquei de que ser imortal é isso, receber esses reconhecimentos, e não as glórias mundanas dessas academias decadentes que glorificam subliteratos e cheiram a naftalina. Naquela tarde, como já disse outra vez, queria que ele e alguns outros naquele cemitério levantassem um pouco do sono eterno para me dar a honra de meio dedo de prosa num café imaginário.
         Só que mês e meio atrás eu não sabia que Cortázar tinha ido a um show de Maria Bethânia no Tuca em 1975 , que proseou num bar ali perto da Puc paulista e que passou completamente incognito lendo seu jornal no aeroporto de Congonhas enquanto a patuléia urrava por Hebe Camargo. Sabia sim que Cortázar tinha vindo ao Brasil e em São Paulo mas desconhecia detalhes que me chegaram através do mais belo texto sobre Cortázar que já li na vida , escrito por um dos melhores repórteres que já conheci na vida e que também já se foi  : Marcos Faerman. (Clique aqui)         
Marcos Faerman no "Jornal da Tarde" em 1968
    Uma das agradáveis surpresas de  minha volta foi que ao surfar pelo acaso internético me dei conta essa semana de um belo “sítio” que registra vida e obra do Marcão. Uma iniciativa que eu  desconhecia , que cumprimento quem a fez e que compartilho agora ainda mais nessa época em que o jornalismo que Marcão praticava  e no qual acreditava está morto e enterrado. O “sítio” é uma beleza e traz inúmeros textos de Marcos Faerman como o que narra o seu encontro com Cortázar e do qual roubei a expressão que abre esse meu texto, o tal “aplauso silencioso”.
     Nos tempos indefiníveis em que vivemos, espinhosos , pouco lúdicos e pouco ternos, Cortazar e Marcão são exemplares indispensáveis para que atravessemos os cabos de péssimas tormentas  e continuemos acreditando que , sim , a arte é a manifestação de Deus nos homens. Ler quem escreve bonito é um bálsamo danado e me faz seguir acreditando que vale seguir lutando contra minha distimia. Vale crer que um dia surgirão, ou pelo menos terão a divulgação que merecem , novos Cortazar e novos Faerman de quem não falo mais para convidá-los a navegar por seu “sítio” que traz todas as informações a respeito sem falar nos viscerais textos.
         Antes de encerrar só quero ser auto-referente pra tentar resumir o que pensava e penso de Marcão, um tipo dificil como homem e profissional como talvez sejam todos aqueles atormentados por tanto talento e indignação. Marcão era uma estrofe de “Guantanamera”. Um homem sincero. Pelo menos foi para mim. Na nossa ex-profissão ( visto o jornalismo estar extinto)  poucos são os colegas generosos . Críticos para te esculhambar não faltam , generosos pra te motivar ou apontar críticas honestas são poucos. Marcão era tudo isso.
        Na minha primeira passagem pelo CADERNO 2  do Estadão  (que completou 30 anos por esses dias) eu fui repórter especial  de abril de  1986 a começo de 1988 se não me falha a memória.A função me dava uma relativa  autonomia pois  eu próprio podia propor minhas pautas ao editor e converte-las em reportagens além de cumprir as pautas sugeridas . Muitas “reportagens culturais” longas que escrevi foram elogiadas por telefone ou ao vivo pelo Marcão  (que atravessava os corredores desde o JT  para falar comigo) com a mesma enfâse com que muitas vezes me detonou . Ao vivo ou por telefone. Sempre tive excelente e calorosa interlocução com ele embora não fossemos necessariamente amigos mas colegas de trabalho. De algumas dessas conversas calorosas ( tanto na redação onde ainda se fumava a vontade quanto na lanchonete do Estadão)  também participaram o saudoso Caio Fernando Abreu, gaúcho como o Marcão.

         Marcos Faerman lia jornais o tempo todo. Lia os colegas, os amigos, os desafetos. Leu muita literatura de primeira categoria e era do ramo. Por tudo isso estava à altura dos dois metros de Cortazar para debater o que fosse com o escritor de multiplas facetas e nacionalidades. Diante disso tudo desnecessário dizer o quanto Cortázar e Marcão nos fazem falta. Pelo menos a mim e tantos outros que saberiam discernir e dar a devida importância, num aeroporto de Congonhas lotado num dia de 1975, quem era o gigante Cortázar e quem era a animadora de celebridades que provocava histeria. Com todo respeito à “gracinha” Hebe Camargo.

Comentários

Mombelli disse…
Saudades do Marcão Faerman. Grande figura, grande texto. Cara emocionado e emocionante. Cortázar também.
Abraço. Grandão.
Que maravilha esta história. Ainda ontem dia do jornalista falei muito sobre o Marcão e hoje ele se materializa através desta cronica maravilhosa. Obrigada pela emoção.
Ricardo Soares disse…
querido Mombelli, prezada Maria Duha...gratíssimo pela leitura tão generosa...bjs aos dois

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