FELIZ ANO NOVO ( versão peru desfolhado)

 

         FELIZ ANO NOVO   ( versão peru desfolhado)

         Do peru desfolhado não sobrou nem um osso, mas a carcaça jaz dentro da geladeira vazia enquanto tomo um café requentado com pão dormido e faço planos para o ano que vem, amém.

         O calor chega aos borbotões, cada vez pior, mais implacável, mais apocalíptico. Nas ruas as pessoas se matam por celulares, pares de tênis, alianças e as crises de ciúmes acabam em matanças se vocês me perdoam a rima de gosto duvidoso.

         Uma inacreditável multidão desceu para as praias, todas elas lotadas de coliformes fecais e peixes contaminados e, sabe-se lá o motivo, veio à mente um golaço de falta do Rivelino em tempos idos e vividos. Justo eu que não sou corintiano e estou me lixando com a multidão em Itaquera vendo jogo do “Timão”.

         As lojas, sempre elas, lotadas na televisão vendendo toda sorte de bugigangas das quais não precisamos e o estoque de champanhe se esgotando, adocicando os dias derradeiros do ano que fecha para balanço.

         Do canto da janelinha na sala vejo um naco da rua e um cão mijando num vaso defronte ao prédio dos ricos. Aí levanto os olhos e vejo o céu do Putin , dele sim , porque está ameaçando pelos ares uma parte do planeta conflagrado depois de tantos anos de gentes cansadas de guerra. Céu de Putin, céu de Ucrânia, Israel , Palestina, faixa de Gaza. Um amontoado de sangue, ossos e gente querendo só achar um bom abrigo nuclear.

         Perdi gosto de assistir novela e nem sei o que são as tais “séries para maratonar” que os boçais vivem dizendo. As séries de atropelos é o que infelizmente tem dominado a minha vida nos últimos anos.  E agora, mais uma vez, chega mais um fim de ano.

         Falando em mar e em maré, em Baixada Santista e litoral norte, posso dizer que  nada disso está do meu lado e a barra pesou. Não tenho dinheiro nem para comprar nem  creme de barbear , por isso sigo com essa barba hirsuta e engordurada a encarar os pardais, os poucos que restam, que ainda se atrevem a chegar perto da janelinha pela qual observo a rua.

         Há policiais ignorantes, violentos e marombados pela vizinhança a espreitar bandidos com caras estranhas que preparam botes certeiros nos passantes e ciclistas.  Não me parece que nada disso vá melhor no ano novo, mas confesso que mantenho as esperanças. De poder voltar a ter dinheiro pra pegar uma ponte-aérea e ver a praia do Leme lá no Rio e sonhar com a namorada que perdi em Vila Isabel. Nada disso rende enredo de escola de samba, mas esse é meu desfile.

         Bom, eu não tenho nenhuma mensagem de autoajuda para passar e estou sim fumando agora, o que é uma coisa fora de moda. Bato as cinzas na janelinha e sigo não gostando de caldo de cana. Sigo meio chateado, chutando as tampinhas do caminho e fungando. Você, talvez, siga por aí tendo os olhos que eu não tenho. Inclusive pra enxergar formosuras que não vejo. E eu com a minha dor de cabeça do lado esquerdo, entro no quarto quente, acendo o incenso e vou dormir com o ano que vem na cabeça.

Ricardo Soares, 30 de dezembro de 2025, 9 h 20 min.

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