AUTORES DO BRASIL : OS MELHORES NÃO SÃO OS MAIORES

 

AUTORES DO BRASIL : OS MELHORES NÃO SÃO OS MAIORES

 

Não há como escrever sobre o assunto sem parecer rancoroso, invejoso ou ranzinza. Mas, é mister falar sobre ele e é ótimo que o tema venha à tona trazido por uma professora de literatura (Dirce Waltrick do Amarante ) que vive fora do eixo Rio- Sp e parece ser uma baita especialista em James Joyce.

         Um texto dela publicado na Folha de S. Paulo nesse fim de semana  (Listas de melhores livros expõem consenso fabricado por mercado editorial) tem causado certo frisson no mundeco literário ( importante ou não) porque toca num ponto relevante no julgamento da qualidade dos autores brasileiros da atualidade. Ou seja , a lista dos melhores e “maiores”, é sempre influenciada pelas relações entre autores que melhor se promovem  e divulgadores (não existe crítica literária de verdade no país hoje) e as editoras grandes que os contratam. Isso sem falar nos prêmios concedidos geralmente aos mesmos de sempre.

         Você pensa que ao acompanhar a lista de “maiores e melhores” da literatura tapuia está mesmo bem informado ? você crê na isenção do que restou de nossa combalida crítica ? Lamento informar que o que ficou de fora dessas listas é muito mais relevante do que está dentro. Agora, mais do que nunca, tudo é marketing, tudo é divulgação, tudo é rede social. Escrever bem mesmo é cada vez mais para poucos. Se publicado por editoras independentes, mesmo que ligeiras, a chance de chegar ao conhecimento público é quase nula.  Afinal , como aponta o texto da professora Dirce a “Intimidade entre críticos e escritores, que se frequentam como velhos amigos, compromete imparcialidade de análises”

         O assunto é tão grave , compromete tanto o julgamento , que conheço editor independente que para ser aceito na rodinha dos ilustres faz resenhas sobre lançamentos de editoras poderosas em detrimento da valorização dos seus poucos bons lançamentos. Não vou citar o editor , mas um livro que ele publicou de um autor que morreu precocemente chamado Agnaldo de Assis Nascimento, autor de “Horses”,uma pedrada que não foi valorizada nem pela editora que o lançou.

         Por outro lado outro editor independente ( e dos mais ativos, com quem já publiquei “Amor de Mãe”, Patuá ) diz a respeito do tema e do texto da professora Dirce:” No fim do ano quis gravar um vídeo falando um pouco sobre sistemas de legitimação e que passam pelo capital simbólico das editoras e que vem - não sou ingênuo - do capital financeiro. Mas aí vem aquilo "pra quê?" "Quem liga?"

Talvez pouca gente ligue Eduardo Lacerda , mas depoimento como o seu que segue no olho do furação é fundamental para atestar o quanto o jogo de autopromoção e da arte de fazer amigos e influenciar pessoas está acima da literatura . E Eduardo ainda conclui na sua “fala” no Facebook :”Sempre repito, as novas tecnologias permitiram a existência e a resistência das pequenas editoras e de autores e autoras independentes, detemos meios de produzir, divulgar, distribuir e comercializar - mas se o certo é que a "legitimação" venha da leitura, autores, autoras e editoras continuam sendo "legitimados" por outros motivos - e isso, de forma alguma, diminui a qualidade do que ninguém escreve. Estamos só começando 2026 e o sistema é cruel”.

         Sim, o sistema é cruel e legitima falsos brilhantes. Tudo parece estar em volta da busca desenfreada por prêmios e não por verdadeiro reconhecimento ( ou mesmo discussão) de mérito. Resenhistas e pseudo-criticos  avaliam o que está por baixo de rótulos só das grandes editoras, com raras exceções. E mesmo que algumas editoras ( como a Patuá) estejam minando esses icebergs dói saber que o joio se sobrepõe ao trigo.

         Para fechar esse texto e não dar impressão que estou abraçado ao meu rancor deixo aqui o paragrafo final do texto da professora Dirce que diz  “a reação mais sadia, por parte do leitor, talvez seja a de não levar tão a sério essas seleções, que acabam promovendo a circulação de certas obras nos ambientes mais disputados do cenário cultural brasileiro, em detrimento de outras, escritas por solitários, desconhecidos, periféricos...

( link para o texto da professora Dirce)

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2026/01/listas-de-melhores-livros-expoem-consenso-fabricado-por-mercado-editorial.shtml

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