DE REPENTE, 1977

 





         De repente, 1977

         Em 1977 completei 18 anos e ali vinha, supostamente, uma certa alforria como atesta a referida palavra colada desde então  no para-brisa de um fusquinha amarelo de plástico , presente de minhas duas  tias solteiras e já falecidas que ainda se deram ao capricho de imprimir na placa traseira do carrinho a minha data de nascimento e o tal número 77 , evocativo ao ano que vivíamos.

         O carrinho era um presente simbólico pois lembrava que a partir da data eu poderia “tirar carta” e sair por aí poluindo o mundo, dirigindo e observando a paisagem. Esse detalhe era importante para os meninos da minha geração e por sorte hoje em dia perdeu totalmente a relevância.

         Pois eis que observar esse remoto fusquinha amarelo , preservado em condições inadequadas, ( a partir de hoje vai pra uma caixinha pra salvar o que resta dele) me remonta a certo cenário amarelo que edulcora “O Agente Secreto” filme que vem sendo festejado  e premiado e que se passa justamente em 1977 com reconstituição visual muito bem feita.

         De repente, 1977 . E aí me cai nas mãos outra efeméride da época , o assassinato da socialite Angela Diniz , morta pelo playba Doca Street  que embora tenha ocorrido em 30 de dezembro de 1976 reverberou tremendamente no ano seguinte conforme atesta a reportagem que achei esses dias feita pelo falecido Hilton Libos para o extinto “Folhetim”, suplemento dominical da “Folha de S.Paulo”, então editado pelo lendário jornalista e boêmio Tarso de Castro.

         O assunto era matéria de capa da edição numero 12 de um domingo, 10 de abril de 1977 e  me chamou atenção porque  se tornou mote para duas produções audiovisuais recentes. Uma a série  da HBO Max  chamada "Ângela Diniz: Assassinada e Condenada", que reconta o famoso caso de feminicídio da socialite, abordando o machismo e o julgamento polêmico com , Marjorie Estiano interpretando magistralmente Angela Diniz  ao lado de Emílio Dantas (Doca Street) e o quase sempre canastrão Antonio Fagundes no papel do lendário Evandro Lins e Silva, ex-ministro do STF e advogado de Doca. Essa série assisti recentemente e se ressalta não apenas o talento abissal de Marjorie como sua sensualidade e formosura que ornam (dizem) com a Angela original . A outra produção ( que não vi)  chama-se simplesmente “Angela” dessa feita interpretada pela bela Isis Valverde que é uma atriz, digamos, como menos recursos que Marjorie. Foi lançada em 2023 e passou meio batido .

         Então, voltando ao meu fusquinha amarelo , no começo de 2026 sou “atropelado” por 1977, o ano que fiz 18 anos e que parece também não querer terminar.  Gosto disso, dessas relembranças coletivas ou individuais. Essa espécie de sincronia cósmica que faz de tempos em tempos alguns anos não se volatizarem na poeira da história. Toda revisão temporal acho salutar. Ainda mais se for uma revisão crítica como parece estar sendo feita em relação a 1977.        

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