GÓTICO
PINTURA DE GRANT WOOD
Gótico
Dentro
de mim mora um banjo , um aragonês, uma fava contada , um maldito português.
Vou pela estrada de Sintra , vou ao Castelo da Pena, vou à Torre de Belém e a
muito mais além . Desenrolo o rolo que tem dentro de mim mesmo e passo pelas
ruas empoeiradas de Feira de Santana buscando um cantil pra guardar água
fresca.
Defronte
a esse maior entroncamento rodoviário do Brasil fico na baita dúvida se devo me
afundar mais Nordeste adentro ou partir para o Norte, regressar ao sudeste e ao
sul , mergulhar na Patagônia. Abraço nos hotéis furrecas , nos leitos, as
melhores palavras, todas quase nuas, violinos alheios num concerto
engasgado.
Refaço
as contas, percebo que tenho muito mais a ver do que a haver e fico sempre
assuntando qual o melhor veículo para percorrer grandes distâncias. Jogo poeira
espessa no meu próprio caminho, apago meus próprios rastros e não sei se a essa
altura, um dia desses, estarei a repetir rotas.
Provável que sim.
São
tempos mudados e os valores antigos agora são meros perigos. Não diga o que
você pensa, não avance em território inóspito sem antes prospectar os
riscos. Tudo são ciscos. Tudo é óleo de
baleia, unha grande de quati , punhais verde-amarelos, velhas cagonas obrando
em torres de papéis, Brasília à deriva.
Bom dia para a vertigem do dia, a noite sempre voraz, os postos de gasolina pegando fogo num cenário de apocalipse motorizado. Os caminhoneiros não andam tomando banho e as marmitas estão com um preço pela hora da morte. Calibrem-se pneus para seguirmos adiante. Antes com destino do que sem. Os pedágios estão extorsivos. (segue)


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