palavras contraditas

        

PALAVRAS CONTRADITAS

 

A essa altura da vida que mais palavras tenho a acrescentar ao português? Que frases, períodos, versos ou expressões fariam diferença? Cenobitas, sibaritas, coisas esquisitas, panos encardidos estendidos ao sol, utopias anarquistas, linguiças defumadas, sobe e desce das calçadas. O que faria certo sentido?

        Milhões de enunciados, falsos recados, purgações, velas, ventos alísios, fazendas modelo, mistérios escondidos numa vala comum, bois e vacas enterrados, morte e vidas severinas, escritores bandidos, redatores de obviedades, difusores de inverdades, turistas e aprendizes, quem está mesmo interessado em palavras que eu possa acrescentar ao português?

        Sim, evidente que há Camões, Pessoa, Machado e Eça, existe Guimarães Rosa e Mário Sá Carneiro e por isso mesmo me pergunto: o que mais posso, podemos acrescentar? Despejar mais uma enxurrada de novos livros pelo país, livros que poucos leem, repetir velhas premissas pois os autores não leram o que veio antes deles? Quanto desperdício de celulose, quanta empáfia por achar que ainda há algo a dizer, quanta vacuidade, quantos fragmentos digitais a entupir tablets e dispositivos onde se guardam palavras.

        Talvez isso seja apologia de uma triste geografia que marca no mapa das consciências territórios que foram pouco visitados. Mas, na verdade, já existem e aí reside o fato: o que há para acrescentar ao prato, ao convescote de sílabas antigas, às serras de nossas barrigas?  É uma overdose de palavras. Lavras novas e muito antigas, todas cheias de brevidades? Como turbinar nossas vontades de sempre mais se não há melhor?  Não seria o caso de depurar as palavras já ditas do que fazê-las novas ou contraditas?

 

 Ricardo Soares / 7 de maio de 2026

       

 

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