ANO NOVO É BOLA DE CAPOTÃO
ANO NOVO É BOLA DE CAPOTÃO
Não existem balões no céu da Vila
Paulicéia porque é uma noite de verão. Mas o pensamento do menino vaga pelo céu
do subúrbio. Ele se aflige porque quer saber o nome de cada estrela que avista
mas só identifica lá no alto as três Marias que uma vez tio Aureliano lhe
apontou em uma noite de Presidente Prudente. Questiona a existência de vida em
outros planetas e ao sentir que a morte é
o fim de tudo toma-se de um quase desespero. Cessa o barulho da panela
de pressão que cozinha o feijão na cozinha. Suspira enfim resignado quando a mãe lhe chama para jantar. Os bolinhos de
arroz que estão na mesa lhe devolvem a dimensão das delícias da vida.
Enquanto come o menino observa seus
pais e suas irmãs. Pergunta a si mesmo o que será deles todos daqui a vinte ou
trinta anos. Considera o ano 2000 uma possibilidade tão longínqua e remota que
nem deve ser levada a sério. Será então
um “velho” de quarenta anos e não gosta nem de cogitar hipóteses a respeito.
Mastiga o bolinho e olha então com imensa ternura para o pai que janta. Observa
os braços dele, queimados pelo sol, e fica tentando enxergar no pai um menino.
Depois da janta chuta infinitas vezes
sua bola nova de capotão - era assim que se dizia - contra as paredes do
quintal . Imagina um enorme estádio, duas traves muito brancas, a
multidão. Imagina-se um astro do
futebol. Vê Edu, o ponta - esquerda do Santos,
tabelando com Pelé . Os dois avançam pelo ataque contra o Corinthians de
Ditão e Rivelino. Lançam o menino que entra pela ponta direita e marca um gol
de placa. O menino, gritando, comemora o
seu feito abraçado a Pelé e Edu. Era a última partida do ano velho, prenuncio
de uma grande campanha no ano novo.
Na sala da casa as enormes manchas de
umidade nas paredes fazem lembrar mapas antigos. Mesopotâmia, Egito,
Tróia. O menino gosta de história e dos
heróis infalíveis que honram seus povos.
Imagina-se agora um valoroso guerreiro das Cruzadas, ou melhor, quer ser
um dos cavaleiros da Távola Redonda do rei Artur. Foi pensando nisso que
atendeu o pedido de seu pai e tirou os sapatos dele calçando-lhe modestos e
surrados chinelos. E foi com o pai fumando em paz naquela noite que assistiram
juntos pela Tv ao comovente filme Como era verde o meu vale .
O Natal havia acabado e o ano novo ia
começar. O pai seguia cansado,
trabalhando longe, e ele não sabia o que
seriam de suas férias. Era um menino na plenitude de sua calma infantil
aguardando os acontecimentos. Sem explicação havia controlado sua ansiedade.
Assim tudo o que viesse pela frente- afinal já havia ganhado sua bola de
capotão - seria lucro.
Naquele ano novo que começava então ele
deve ter fantasiado mais do que nunca.
Viajou pelo fundo do mar, regrediu pelo túnel do Tempo, correu pela Terra
de Gigantes , detonou monstros com o
Nacional Kid , detestou a Lassie e Ben ,o urso
amigo . Quem sabe iria até Caçapava tomar banho de
piscina com o primo no clube Jequitibá. Talvez visitasse outros primos em São
Carlos e fosse ajudar o tio Nelson no
bar da Estação . Talvez descesse a serra e fosse até a Praia Grande tomar
limonada com tio Moysés e tia Neisa no edifício Bourbon. A vida tinha lá boas
surpresas escondidas até nas conversas e nas páginas de alguns livros.
Não me lembro se nesta ocasião o menino
já tinha certeza do que gostaria de ser no futuro. Mas é certo que ele não imaginava pôr os pés
na Transamazônica nem percorrer a cordilheira dos Andes em dias de muita neve.
Para este menino Paris não existia, Londres era
uma miragem e até o interior do Paraná parecia ser o máximo de
lonjura que ele poderia alcançar.
É ano novo e este menino velho está acordado. Me perdoem decepcioná-los mas este menino sou eu. Diante do espelho como o inesquecível personagem de Fernando Sabino. Deste menino que fui tomo emprestada a lembrança da velha bola de capotão. E , tentando a paciência que não tenho, entro em campo novamente porque uma nova partida vai começar. O placar está zerado porque ficar lembrando só das derrotas é definitivamente coisa do passado. Eu e o menino ainda acreditamos na invenção da surpresa.
(crônica publicada no caderno "Cidades" do jornal "O Estado de S.Paulo" em 02/01/1997)


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