FOI ONTEM, MAS PARECE QUE NÃO FOI


Esse, abaixo, é um trechinho de um romance antigo que jamais publiquei e nem sei se vou. O recolhi a esmo pois me causou estranhamento. Fala de um tempo que foi "ontem", mas que parece muito mais diante dessa época em que se evocam de novo fantasmas do obscurantismo como se nada tivesse acontecido entre 1964 e 1985.


(...)A gente gostava do “Clube da Esquina”, das histórias do Tropicalismo, da turma do Cinema Novo, do pessoal do Pasquim, de tudo aquilo que parecesse uma turma, uma confraria, mesmo que não fosse. A gente queria ser nômade, mas queria estar junto. A gente queria deitar em turma do lado de uma grande fogueira e ficar contando as estrelas e uma porção de mentiras. A gente queria mais que ser amigo um do outro; a gente queria ser cúmplice. Foi nesse pique que eu conheci ela. A gente estava em sintonia desde o primeiro momento e no meio dessas lembranças todas eu confesso que já misturo a cronologia. Mas sei que era uma inquietação danada que vinha com a anistia de quem voltou do exterior por perseguição política, uma vontade de fazer de novo o novo, de buscar o miolo do Brasil dentro dele mesmo, de poder dizer e fazer o que se pensava, de poder assistir a uma porção de filmes que eram proibidos, de ler o que estava censurado, de poder fazer passeata e dizer alto o que se pensava sem o risco de ser preso ou tomar borrachada da polícia.             Não que eu fosse lá muito militante político. No fundo, no fundo, achava os barbudinhos políticos estudantis um exército de chatos, doutrinários, metidos a besta. Eu já era simpatizante anarquista, já lia Proudhon, Thoreau e outros que pregavam a utopia. Queria distância da playboyzada que curtia discoteca, mas também odiava os que batiam bumbo ouvindo Mercedes Sosa e Tarancon. Eu acho que mesmo naquela época estava meio deslocado no tempo. Não queria nem uma coisa nem outra. Queria era entender aquele tempo estranho que dava a impressão de que tudo estava por acontecer. O que incomoda agora é que nada parece estar por acontecer. Tá parecendo uma paisagem depois de uma grande queimada. Uma fumaça fedida e forte que incomoda a garganta, irrita os olhos, deixa a gente entorpecido, sem saber pra onde vai. Inativo, anestesiado, como se tivesse cheirado gasolina, éter, esmalte de unha. Aliás, vou te contar... mesmo naquela época ela não pintava as unhas. Cortava rente, unhas sempre limpinhas e alinhadas, mas jamais pintadas. Também amei ela por isso desde o começo. Não gosto de mulheres de unhas pintadas. Principalmente de vermelho escuro. Se as unhas forem compridas pior ainda. Me dá verdadeiro asco, quero correr de mulher que faz isso. Mas ela nunca fez. Ela era desde o começo um amor que exalava patchouli e incenso indiano o que para muitos pode ser uma mistura doce e enjoativa, mas para mim sempre foi tudo de bom. Ela sempre foi tudo de bom(...)

Comentários

Postagens mais visitadas