Menino abraçado no Mickey
Menino
abraçado no Mickey
Bem
embaixo do Minhocão, na rua Amaral Gurgel, o menino abraça seu rato. O menino e
o rato do menino estão dormindo embrulhados em cobertores encardidos enquanto
os ônibus passam, cafés ralos são tomados e marmitas são levadas em
providenciais passeios para os serviços. O menino e o rato do menino sonham com
as paisagens que viram na tv grandona que estava na vitrine da loja também
grandona ontem à noite.
O
rato do menino, mesmo sujo e alquebrado – tem manchas de massa de tomate, graxa
e Nescau- viveu algum tempo em um apartamento fino da rua Haddock Lobo . Um dia
seu primeiro dono, enjoado dele, o jogou no lixo e aí o segundo dono, este que
dorme abraçado, o adotou para sempre . Mesmo sujo e alquebrado o nome do rato é
Mickey e do menino é Nestor. Mickey pergunta em seu silêncio de pano se Nestor
é nome de menino. Disso eu não sei, mas como no samba antigo, este Nestor está passando
por grande dificuldade.
O
cronista não se arrisca a dizer com todas as tintas quais são todos os
problemas do Nestor. Tem medo que seu texto vire um arremedo de “Fantástico” ou
possa ser tachado de piegas por semióticos e concretistas de plantão. O cronista
tem suas bobinhas veleidades intelectuais. Por isso não vai dizer que Nestor não
tem pai ou mãe, perdeu os irmãos e vive há muito tempo na rua. Nestor é pequeno,
pequeno demais. Não sabe quantos anos tem nem de quem ganhou as chinelas
havaianas que calça agora. Sabe apenas que semana passada amanheceu com elas
nos seus pés.
Nestor
também sabe que apenas ama o seu rato. Acompanha com ele todos os dias a
multidão que atravessa a cidade ali perto da praça Dom José Gaspar. Arrisca-se
a pedir alguns trocados e poucas vezes tem sucesso. Porque ele é um menino feio
e sujo e tem um rato imundo que chama Mickey e as pessoas preferiam que ele
fosse cheiroso e carregasse um rato limpinho cheirando a banheira de motel.
A
vida que passa na televisão parece boa aos olhos de Nestor. Lá, na tv, as vezes
as pessoas não estão acuadas e nem parecem ter medo quando descem dos carros e
entram nas lojas. Nestor gosta de ver isso assim como aprecia ver as meninas de
roupas coloridas comendo pão de queijo ali na rua Libero Badaró. Nos dias frios
elas fazem muita fumacinha com a boca de tanto que falam. Nestor gostaria de falar
mais, mas não consegue. Prefere ficar mudo como o seu rato que calado como ele
acaba se conformando com a vida que leva nas ruas.
Não
vou falar da polícia que amola o Nestor. Não vou falar dos meninos mais velhos
que batem e roubam o Nestor quase todos os dias. Também não vou falar da
vontade que ele tem de fugir com o Mickey para a beira de algum rio e ali ficar
pescando uma porção de peixes. Ele e o rato gostam de peixes fritos e de pipoca doce. Também gostam de paçoca,
feijão, doce de goiaba, queijo, muito queijo...
O
rato olha agora para um ônibus que passa bem ao lado deles. Cutuca o Nestor que
acompanha o coletivo com os olhos cheios de remela. É o ônibus “Morro Grande”
que deve deixar Nestor perto de onde dizem que morou sua mãe. Mas é bobagem
lembrar que a mãe do Nestor bebia muito, sofria dos nervos e perdeu os dentes.
É bobagem lembrar isso porque quem está mais tendo paciência de ler crônica
hoje em dia não há de querer saber das tristezas da vida. Se até Nestor e seu
rato querem o escapismo por que não o leitor?
O
rato olha o ônibus e olha o Nestor. O menino na verdade não presta atenção mais
em nada. De uma hora para outra só pensa
em ser aquele loiro herói japonês da
capa do gibi. A armadura que ele usaria então seria a mais poderosa e a arma que levaria nas mãos teria os raios
roxos mais fulminantes do Universo. Assim ele poderia viajar para onde quisesse
e ninguém ia mais incomodar. Assim ele e seu rato poderiam comer todo dia e
toda hora. Poderiam jogar fliperama, entrar no cinema e comprar gibis. Por ora,
enquanto a temperatura cai, o menino e seu rato só tem uma coisa a fazer.
Entrar dentro desta enorme caixa de
papelão e cheirar a cola furtada anteontem. Depois o menino abraçado no Mickey
dormirá sob o sono dos injustos.


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