O DIA DE VER O FILHO

 


( O texto abaixo, antigo, é mais um dos muitos que ficaram perdidos cadernos afora. No caso desse , um caderno virtual, um HD abandonado e finalmente achado. Era para ter virado um livrinho infanto-juvenil. E não virou nada. E 21 anos depois de feito vira agora uma croniqueta de um tempo perdido)


O DIA DE VER O FILHO

Passa tudo muito rápido. Um dia você olha para o lado e descobre que seu filho já esta fazendo barba, engrossando a voz e se preocupando com algo além  de jogos de futebol e monstrinhos japoneses.   Ele já não te acha o super-herói que sabe tudo ,duvida de suas promessas, questiona seus atos e não obedece a suas ordens na primeira voz de comando. Muitas vezes nem na segunda.

         Tenho saudades do menino que foi meu filho. Tenho saudades de como eu e a mãe dele planejávamos o melhor dos futuros para ele em um mundo sem dissabores, contrariedades ou frustrações de grande ordem. Lembro que combinávamos estratégias em comum para a educação do menino e de como fizemos um pacto para que a palavra de um nunca fosse desautorizada  na frente do filho. Mesmo que a gente não concordasse com certas coisas sobre a educação do menino discutiríamos as diferenças longe dele para dar sempre a impressão de que estávamos unidos, coesos , que mantínhamos uma estratégia comum em relação a tudo que dissesse respeito ao nosso rebento.

         Parece que os pactos foram feitos para serem rompidos . Assim sendo muitas vezes eu desautorizei a mãe do meu filho na frente dele e vice- versa. Também não a respeitei em muitas outras ocasiões e fui desrespeitado por ela outras tantas vezes. Discutimos na frente dele, trocamos palavras rudes, acidas e amargas que tenho certeza que ficaram naquela cabecinha . Os olhos daquele menino olhavam em volta então como se quisesse estar longe da discussão e não foram poucas as vezes que começou a cantar no meio de nossas brigas.

           Lembro de tudo isso sem culpas , sem remorsos. Apenas recordo  disso junto com as roupas que ele usava na primeira infância como um  conjunto de shortinho azul e camisa branca, como um bonezinho alaranjado , como um carrinho sem rodas que ele insistia em esfregar naquele velho carpete do apartamento de dois quartos.

      Hoje aquele apartamento existe apenas nas fotografias antigas, o velho carpete há tempos se deteriorou em algum lixão, as roupinhas e os brinquedos dele não existem mais como não mais existe aquele jovem pai amoroso que fui um dia cheio de inexperiência e expectativas em relação ao futuro que estava por vir.

     Hoje moro no meio do mato, com um cão labrador que me da atenção e meu filho mora no epicentro de um bairro populoso ao lado da mãe que assim como eu envelheceu cheia de alegrias adiadas, peso a mais na cintura, sonhos desfeitos na véspera, olhares perdidos no tempo, promessas de ano novo jamais cumpridas e muitas boas lembranças de outros tempos.       

    Prestem bem atenção: não quero fazer aqui um relato amargurado de um pai separado que num saudosismo precoce teme a juventude de seu filho querendo recriar a infância que já passou. A infância do próprio filho e a infância do próprio pai. Quero apenas relatar como se sente um pai quando um filho que cresce deixa de querer vê-lo com freqüência. Relatos de filhos abandonados existem muitos. Mas não estou aqui para fazer o relato do pai abandonado. Apenas quero passar um inventario de impressões sobre como se sente um pai que depois de conviver muitos anos todos os dias com o filho passa a vê-lo de vez em quando. E ainda mais de vez em quando justamente quando as prioridades do filho passam a ser outras.

      Durante todo esse tempo em que vocês freqüentaram a escola tiveram que ler bons e maus livros infanto-juvenis. Muitos deles os professores acreditavam que deveriam conter e contar histórias com finais edificantes, bons exemplos, personagens nobres, mesmo que não fossem verdadeiros, mas nobres, com nobres sentimentos, nobres emoções... como se a vida fosse feita apenas de pessoas e ações nobres.    

      Essas historias na sua maioria deveriam ter ao menos um bom pai ou uma boa mãe, um tio superlegal, uma turminha unida com um vilão em volta. Coisas assim. Receitas prontas que muitas vezes os professores adoram, as editoras executam e muitos escritores obedecem. Eu que nem escritor sou vou logo falando. Não estou com vontade de obedecer a essa regra e digo logo de cara que adoro os garotos e garotas que duvidem.  Duvidem de mim em primeiro lugar ... duvidem que sou um bom pai, um bom ex-marido, um bom profissional. Jovens, duvidem já dizia o saudoso professor Darcy Ribeiro.

      Pois bem, comecem duvidando do meu começo de história todo cor de rosa. Ou melhor, um começo alaranjado como convém ao por do sol que é onde começa a história.   Meu filho era pequeno; talvez tivesse menos de quatro anos. Estávamos em um barco subindo o rio Preguiça, lá no Maranhão. Um sonolento motor de dois tempos nos levava rio acima... tínhamos saído de Barreirinhas e íamos para Caboré , no coração dos lençóis maranhenses.   Sob a frágil capota do barco protegidos do sol quente estávamos eu, minha ex-mulher, meu filho e mais uns dez passageiros, entre os quais uma mulher gorda com três crianças pequenas que carregavam saquinhos de camarão salgados e estavam de olho no pacote de bolachas doces do meu filho. Sem que tivessem a interferência dos pais e silenciosamente as crianças trocaram os saquinhos de camarão salgado pelo pacote de bolachas e ficaram roendo as novidades ate chegarmos a Caboré mais de uma hora depois. As crianças sabem fazer trocas muito bem.

Ricardo Soares   22:07 06/03/05

 

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