O PAI VÊ A LUA DE PERTO

Ontem a humanidade lembrou os 40 anos da chegada do homem à lua. Cá com os meus botões tenho lembranças muito vivas desse dia. Elas inspiraram inclusive o conto (ou será crônica ?) que transcrevo abaixo e que foi publicada no Estadão em meados dos anos 90 quando lá eu mantinha uma página semanal (às quintas) no caderno "Cidades". Essa mesma crônica está no livro "Travessias Singulares" (Clique aqui) organizado pelo professor Rosel Bonfim que reuniu relatos de escritores brasileiros vivos e mortos que escreveram sobre a relação pai e filho. Sei que o melhor fórum pra publicar contos (ou mesmo crônicas) não são os blogs. Mas como fiquei sentimental 40 anos após ver o homem chegar à lua , imagem que presenciei na companhia do meu falecido pai, não resisti à tentação de tascar o texto aqui. Sorry.

O pai vê a lua de perto

Seu corpo era grande e ficava meio espremido dentro do fusquinha marrom naquele suado trajeto diário entre São Bernardo do Campo e o Jaraguá. No painel do carro uma imagem de São Cristovão guiando teus caminhos. Um imã - amuleto. A certeza de que além da lonjura do percurso haveria de ser feliz o retorno para casa.
Chegava com o pão debaixo do braço - a gente chamava de bengala, lembra ? - e sempre chupando balas de hortelã para disfarçar o bafo da talagada que havia tomado na padaria. Escondido da mãe que em virtude das bebedeiras do avô não suportava homem que bebia. Aí muitas vezes eu lhe tirava os sapatos e as meias e ia buscar os chinelos velhos no quarto. E você esperava a janta falando pouco.
Dura rotina sem espaço para muita fantasia o bom eram as raras vezes que molhávamos os pés na Praia Grande construindo castelos de areia e olhando o tempo passar com nossos calções listrados. Eu magro e banguela. Você gordinho e feliz ainda mais pelas ostras que as vezes ancoravam em nossa mesa. Cidade Ocian, Vila Mirim, Vila Tupi. Um cenário antigo saído de algum filme do neo- realismo italiano. Éramos italianos e não sabíamos.
A vida não te deu tantos bons empregos e te deu três filhos bem diferentes. Um menino e duas meninas. E ao que consta você sempre exerceu com gosto e ciúme sua paixão pela família. Um gosto que suportava as reprimendas quando você tomava sopa fazendo barulho com a boca ou quando fumava demais no meio das refeições. Um gosto que suportou as sutis humilhações que os mais bem aquinhoados da família lhe impunham.
Homem do interior. Moreno e troncudo. Quase grosso mas com um refinamento que ia muito além das etiquetas. O gosto pela sinceridade, o intuitivo nojo a toda espécie de hipocrisias. O desgosto por ter que enfrentar os rituais entediantes dos batizados, casamentos, noivados e finais de ano onde todos fingem viver em harmonia.
Este interior distante que marcou as feias unhas dos teus pés afinal era Assis, Rancharia, Mombuca ou Presidente Prudente ? sua alma carente passou por todos estes recantos mas veio procurar fincar raízes em uma pensão barata no bairro da Liberdade, em São Paulo, quando lá não era ainda o reduto dos orientais. Como será que você via o sol se pondo a partir de uma janela da rua Taguá ?
Este interior tosco por certo lhe deixou enormes sensações de insegurança refletidas na sua mania de trancar e destrancar a mesma porta várias vezes para ter certeza de que todos estávamos seguros. Eram outros tempos. Tempos em que podíamos morar em um modesto sobrado de uma vila fabril sem ter medo de assaltos e violências apocalípticas. Tempo em que os gatunos mais ousados só roubavam bujões de gás do nosso quintal. Tempo em que você plantou uma simpática parreira de uva de onde colhíamos as nossas sobremesas de verão e de onde um tio sírio tirava as folhas tenras para fazer deliciosos charutinhos recheados de carne moída. Tempo em que eu deitava abaixo desta mesma parreira e via o céu ainda cheio de estrelas e imaginava o quão distante estava o ano 2000 onde eu já seria um velho de 40 anos.
Esta parreira de uva servia de imaginária cesta de basquete para mim. Ali converti meus primeiros pontos importantes e me imaginei Ubiratan, Carioquinha , Hélio Rubens. Ali enfrentei e venci o time dos Estados Unidos muito antes de Oscar e sua trupe fazerem o mesmo naqueles jogos Panamericanos . E os muros daquele quintal tabelavam comigo e minhas bolas de plástico. Depois joguei basquete de verdade. E parei logo seduzido por palavras. Dei de escrever para sua desconfiança. E assim segui este caminho tendo hoje a pachorra de expor as vísceras de minha infância só para dizer o quanto sinto a sua falta .
Nunca esperei chegar a tanto com tantas palavras baratas, emoções achadas num balcão de saldos, emoções comuns a tantos de nós. Mas sei que as palavras tem cheiro e eles me remetem a situações idas e vividas num tempo em que meus olhos ainda imaginavam o que podia haver depois das curvas. Na verdade isso não importava porque entre eu e a morte ainda havia você na trincheira de certa forma me defendendo. Hoje o pai já não há. Há apenas o filho e seu espírito que não é santo. Perdido em meio ao tiroteio tento me abrigar sob a marquise porque além dos tiros a chuva chegou. Lava as minhas lembranças e me deixa exultante quando consigo expelir o pessimismo e volto a crer que as palavras libertam muito mais do que prendem.
E apesar de toda a sua desconfiança meu pai eu me sinto gratificado por todos estes anos que me dediquei a namorar com as palavras. E apesar de sua distância devo dizer que elas me servem quando quero expressar o quanto sinto a sua falta. Pai, era uma noite bonita e os americanos chegaram na lua . Estávamos juntos na sala . Quem viu isso junto nunca mais se separa. E, afinal pai , como é a Terra vista aí de cima ?
***

Ricardo Soares

Comentários

vero disse…
Olá boa tarde,

venho agradecer e retribuir a visita que fez ao meu blog :)

Fico feliz por querer conhecer o meu livro, não é uma missão impossivel apesar da distância posso sempre enviar um exemplar se por acaso desejar claro :)

Cumprimentos
c.k. disse…
Olá, Ricardo.
Depois que eu li na internet, há um ano atrás, que a fita original da ida do homem a lua tinha sido 'extraviada', dei ouvidos às pessoas que diziam que a ida do homem à lua tinha sido montagem cenográfica. Lunáticos ou não, dê uma olhada neste site: http://www.afraudedoseculo.com.br/
Neste site se coloca várias argumentações dizendo que realmente foi uma montagem cenográfica no deserto de Nevada, e quem criou os efeitos especiais foi o Stankley Kubrick. Dê uma lida, eu li e parecem bastante racionais os argumentos.
;-)
Bem, não tenho condições de comentar um texto...só posso dizer que emociona, é lindo, escrito de uma forma gostosa...
Sensacional! Mais um texto seu que vou passar a recomendar em meus cursos! Não soube na época! Vou no link da Cultura já já, encomendar!...
Parabéns! Não bastasse a qualidade da obra, você sabe que é meu tema predileto, e consequentemente de trabalho!
Sammyra Santana disse…
Oi, tudo bem?
Estou divulgando em meu blog a "Campanha+Promoção: Ajude Salete Maria a CORDELIRAR". concorra ao sorteio de uma linda camiseta pintada à mão!
Trata-se de uma campanha para ajudar a grande poeta Salete Maria a lançar sua coletânea de cordéis.
Dá uma passadinha lá no meu blog e, se der, participa pra dar uma força e contribuirmos pro enriquecimento cultural de nosso país!
Beijos!
Stella disse…
Acho que o fato de eu nunca ter vivido isso com meu pai me fez ficar mais emocionada. É como a dor do que podia ter sido, sabe? :/

Bonito o texto! Beijos
Patrícia Lara disse…
Olá!

Navegando por esse mar de blogs, ancorei por aqui alguns bons minutos! Li alguns de seus textos-crônicas-contos e adorei!

Parabéns! Tem um lindo espaço aqui. Voltarei mais vezes!

Um abraço,
Patrícia Lara
Arilo disse…
Sem palavras para essa cronicaconto aí... Tocante inspiração que emociona...

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